Estatísticas no Voleibol: como utilizá-las adequadamente
O voleibol tem sido contemplado, de forma crescente, com transmissões pela televisão. O número delas reflete, claro, a popularidade cada vez maior do nosso esporte. Nas transmissões, incessantemente, os locutores e os comentaristas apontam alguns atletas como os melhores daquela partida que está sendo veiculada, do campeonato, do Brasil ou mesmo do mundo! Esses números revelados, são baseados em levantamentos estatísticos, mas podem refletir estratégias para estimular o interesse do público pelas transmissões.
Entretanto, verifica-se que a maioria dos comentários sobre as performances de atletas e equipes, não está em concordância com a análise de muitos dos estudiosos do voleibol. Para entender-se a discrepância daquilo que os profissionais da televisão dizem, com o que realmente ocorre nos jogos, há a necessidade de entender-se como os dados que levam às conclusões sobre o desempenho esportivo devem ser coletados, analisados e interpretados.
No Google (2025) encontramos: “Estatísticas esportivas referem-se à coleta, análise e interpretação de dados numéricos relacionados a eventos esportivos. Essas estatísticas são usadas para avaliar o desempenho de atletas e equipes, prever resultados, analisar tendências e otimizar estratégias de jogo. A análise estatística no esporte pode envolver desde a contagem de passes e chutes a gol até a modelagem matemática de probabilidades de vitória”.
GARGANTA (2001) afirma: “a denominação “análise de jogo” é a mais empregada na literatura, considera-se neste conceito o englobamento da observação dos eventos táticos no transcorrer do jogo, do registro dessa observação e da interpretação desses inúmeros registros ou banco de dados”.
De acordo com GRECO e MATIAS (2009) : “Apesar de toda a tecnologia para o melhor entendimento dos Jogos Desportivos Coletivos, caberá ao responsável pela criação do banco de dados ser um profundo conhecedor da modalidade esportiva em específico e não um exímio conhecedor de informática. Eles saberão e compreenderão melhor o significado de cada um dos itens que compõem uma categoria”.
Essas colocações implicam que as análises do desempenho de atletas e das equipes nas partidas ou competições, terão mais fidedignidade quando realizadas com a correta identificação dos contextos em que os dados foram coletados. As contextualizações somente podem ser identificadas por experts em voleibol, que conheçam os planos táticos das equipes em análises e os reais potenciais dos atletas que a compõem.
“O voleibol é um jogo de oposição-colaboração (RIERA, 1989 apud MESQUITA, 1996), no qual a ação de uma equipe se desenvolve em um espaço separado daquele do adversário. Essa condição promove uma alternância sistemática entre o ataque e defesa”.
Nessa troca constante de intervenções das equipes, seis fundamentos são requisitados para que se possa jogar voleibol: saque, recepção, levantamento, ataque, bloqueio e defesa. O desenvolver das ações solicita o sequenciar lógico da utilização dos fundamentos, em uma complexidade que requer constantes ajustes e interações para a obtenção da eficácia por parte dos participantes. Os levantamentos estatísticos referentes aos seis fundamentos do jogo, apontados separadamente, não apontam necessariamente as eficácias e eficiências das ações. A dinâmica inerente à prática do voleibol reforça a interdependência entre os fundamentos.
As transmissões televisivas calcadas nos levantamentos estatísticos as entidades organizadoras das competições elegem e divulgam, como melhores atletas em cada um dos fundamentos, aqueles com as maiores pontuações em cada um deles. Ocorre que esta prática simplista, na maioria das vezes, não só é imprecisa como incorre em injustiças com atletas que realmente mereceriam honrarias.
Como já apontado acima, os dados estatísticos apresentados devem ser interpretados dentro dos contextos em que foram extraídos.
A identificação de um bom sacador exige a consideração de vários fatores. Os saques sempre são táticos pois, visam dificultar os side-outs adversários, tornando-os mais previsíveis para facilitar as ações defensivas da equipe que sacou. Fica então a pergunta: o bom sacador é o atleta que faz mais aces, ou aquele que mais adequadamente obtém sucesso tático, permitindo que a sua equipe neutralize as intensões ofensivas adversárias?
As respostas mais adequadas somente podem ser dadas por quem conhece voleibol, pois elas dependem de entendimentos sobre as características dos side-outs de cada equipe, do potencial de recepção e ataque de cada atleta. A técnica e a tática utilizadas pelos sacadores devem ser as mais adequadas para fazer frente às características da equipe adversária em questão, bem como às planificações táticas das mesmas.
Para um bom entendedor, cada saque interfere, com determinado grau de eficiência, no confronto realizado entre os ataques e as formações defensivas que se contrapõem. E ainda, para que os resultados das análises de cada ação possam refletir o realmente ocorrido, o momento em que ela ocorreu deve ser considerado: início ou final do set ou do jogo, o placar, a importância da competição, etc. O histórico do desenvolvimento técnico e tático daquela partida também deve ser considerado.
Portanto, uma análise do jogo, deve sim levar em conta acertos e erros dos sacadores, mas muito mais relevantes, para a identificação e qualificação das performances de cada um deles, é o conhecimento dos contextos em que o fundamento foi executado.
As análises relativas ao desempenho dos atletas e equipes, ao emprego dos demais fundamentos, também devem contemplar em quais situações eles ocorreram.
A recepção de saque é primeiramente avaliada pela qualidade do passe dado ao levantador. Mas ela deve considerar também em qual posição da quadra quem recepcionou se encontra: se em uma das posições de ataque ou de defesa, e qual a dimensão da área da quadra sob a sua responsabilidade. É importante que se considere também as particularidades dos saques que cada um dos passadores recebe, nas diferentes passagens do rodízio.
Já a análise da recepção de saques coletiva de uma equipe, requer que se conheça seus planos táticos de jogo para os side-outs; inclusive as possíveis variações deles. Por exemplo: em uma determinada passagem o plano tático previa um passe junto à rede, direcionado entre as posições 2 e 3, ou entre as posições 3 e 4? O referido passe deveria ter uma trajetória alta ou baixa, rápida ou lenta?
Para que se possa avaliar se um levantador está atuando bem, a qualidade de passe que ele recebe, é um bom ponto de partida. Os levantamentos adequados com diferentes passes, seus ajustes a atacantes de diferentes características, funções táticas, e atuando em uma das várias posições da quadra, revelam também o nível da performance de quem os executa.
A tática individual de um levantador determina a sua capacitação em relação à sua distribuição de jogo, de modo a aproveitar satisfatoriamente os potenciais de seus atacantes, frente às formações defensivas adversárias em diferentes momentos de uma partida. A qualidade dos passes recebidos por ele, não pode ser desprezada.
Quem avalia a capacidade tática de um levantador, deve conseguir visualizar a atuação dele sempre dentro do contexto criado pelo passe recebido. As possibilidades criadas pelos movimentos de preparação dos atacantes, e a distribuição tática dos bloqueadores e defensores do time oponente, criam possíveis otimizações que devem ser aproveitadas por um bom levantador.
Também se torna importante, para avaliar a atuação dos levantadores, o registro do momento do jogo em que suas ações são realizadas, considerando o histórico da eficácia delas ao longo daquele jogo, bem como da produtividade do tipo de levantamento escolhido.
As maiores imprecisões quanto às avaliações feitas nas transmissões das partidas na TV, ocorrem em relação às performances dos atacantes. Na verdade, não se deve valorizar somente quantos pontos um atacante obteve em suas intervenções, mas também qual foi o percentual positivo atingido em relação ao número e à qualidade de levantamentos recebidos.
O desempenho dos atacantes precisa considerar os níveis de dificuldades enfrentados por eles. A qualidade dos levantamentos que recebem, os níveis de bloqueios que enfrentam em cada passagem do rodízio, o padrão defensivo adversário e os momentos da partida. Destacar a potência de um atacante é fácil, mas difícil é reconhecer um atacante com recursos para bem solucionar a maior parte das situações-problema criadas pelo jogo. Grandes atacantes são sempre muito marcados pelas defesas adversárias, portanto somente serão letais se possuírem muitos recursos, inteligência e criatividade e muita tática individual.
A identificação de bons bloqueadores também merece muita atenção. Obter sucesso neste fundamento implica em uma capacidade rara de tomada de decisão, em um espaço de tempo exíguo, por parte do atleta. Uma comparação entre vários bloqueadores deve considerar como cada um é exigido pelos ataques adversários. As características dos levantamentos e dos atacantes adversários, e em qual posição da rede atacam, também servem de parâmetros para a avaliação dos bloqueadores.
Além de constatar se o bloqueio é simples ou coletivo, quem avalia deve reconhecer qual a função tática de cada uma das ações, e sua relação tática como a defesa de campo. Devem ser identificadas também, as diferentes potencialidades de realização de bloqueios nas diferentes composições da equipe na rede, provocadas pelos rodízios. E o mais difícil: como essas diferentes composições estão se encaixando de acordo com as alterações táticas determinadas pelos rodízios da equipe oponente.
Nas avaliações individualizadas das performances de um bloqueio coletivo, não pode ser negligenciada a atuação de nenhum de seus componentes. Por exemplo: em um bloqueio duplo de extremidade, na maioria das vezes, a ação do central depende do posicionamento adequado dos atletas das posições 2 ou 4. Quando o referido bloqueio duplo obtém sucesso, com a bola sendo bloqueada de fato pelo central, o seu parceiro de ação também não merece receber os créditos pelo ponto obtido? E no caso de fracasso, qual atleta errou?
A eficácia tática de uma equipe na utilização dos saques, nas três passagens do rodízio, em que cada bloqueador passa pela rede também interfere objetivamente na performance deste fundamento. Não se trata de uma avaliação fácil de ser feita.
A determinação dos atletas mais capacitados em relação à defesa de campo tem-se mostrado muito exigente quanto à quantidade de fatores a serem considerados elementares para que se busque bons defensores na prática do voleibol de alto padrão. Posicionamento tático adequado resultante de antecipação, velocidade de reação, agilidade e aceleração, e perfeita adequação à tática defensiva estabelecida pelo plano de jogo de sua equipe, são pontos relevantes para que um bom defensor obtenha tomadas de decisões precisas e adequadas.
Para se obter precisão ao se aquilatar o desempenho de defensores, deve ser considerada também a capacitação técnica e tática dos bloqueios de suas equipes. A sincronização e o ajuste entre bloqueio e defesa de campo, são fatores determinantes para a atuação defensiva de uma equipe. Esse entrosamento deve considerar inclusive as possíveis variações técnicas e táticas do sistema ofensivo da equipe adversária.
É comum um bom defensor ser igualmente eficaz nas proteções aos ataques, mas não se pode generalizar. Os líberos, muitas vezes esquecidos nas premiações de melhores performances, têm sido avaliados nos quesitos defesa, recepção e cobertura ao ataque. Entretanto, no voleibol moderno, as suas intervenções nos levantamentos passaram a ser determinantes para os resultados das partidas, portanto, devem ser aquilatadas. Muito se tem comentado sobre o papel do líbero como motivador da sua equipe. Talvez seja mais um ponto para avaliá-lo.
O presente estudo nos mostrou que os estudiosos do voleibol não devem se fiar, somente nos números mostrados pelos levantamentos estatísticos publicados pelas entidades que organizam as competições, e menos ainda pelas avaliações feitas por comentaristas e narradores das transmissões televisivas das partidas do voleibol. Os experts do nosso esporte, primam por valorizar os ensinamentos de Júlio Garganta que exigem que os dados estatísticos somente tem validade, quando identificados os contextos em que foram coletados. E afirma ainda, que somente profundos conhecedores do esporte conseguem tal façanha.
Referências
GARGANTA, J. A análise da performance nos jogos desportivos. Revisão acerca da análise do jogo. Revista Portuguesa de Ciências do Desporto, v.1, n. 57, 2001.
MATIAS, C J A; GRECO, P J. Análise de jogo nos jogos esportivos coletivos: a exemplo do voleibol. Pensar a prática, v. 12, n. 3, 2009.
MESQUITA, I. Contributo para a estruturação das tarefas no treino em voleibol. In: OLIVEIRA, J.; TAVARES, F. (Eds.). Estratégia e táctica nos jogos desportivos coletivos. 1. ed. Porto: CED. 1996.