Instrutor da CONAT: as complexidades de suas funções
O voleibol brasileiro tem muitas conquistas internacionais relevantes. Ao longo das últimas cinco décadas o Brasil mostrou ao mundo grandes equipes, formadas por excelentes atletas e dirigidas por treinadores muito competentes. Entretanto deve ser destacado, que a qualidade apresentada pelo Brasil, em seu voleibol, também tem como responsável a CONAT - Comissão Nacional de Treinadores, da CBV. Ela tem como missão principal formar os treinadores nacionais, através de cursos ministrados por seus Instrutores.
Muito se tem escrito, em publicações várias, e discutido nas aulas da CONAT, sobre as dificuldades que tem um treinador de voleibol em sua profissão, pois além dela ser extremamente complexa e desgastante, exige uma formação multidisciplinar e constante atualização. No entanto pouco se observa e comenta sobre as particularidades que atuação dos Instrutores da CONAT requer. É importante que elas sejam abordadas, pois são esses professores que dão uma parcela, quase que decisiva, na formação dos treinadores. É importante que se reconheça que os instrutores são imprescindíveis para a formação dos treinadores nacionais, e que eles também têm responsabilidades quanto ao nível do voleibol praticado no Brasil. Eles devem, portanto, ser profissionais especiais.
As atividades e condutas dos instrutores da CONAT são estabelecidas e normatizadas por três documentos oficializados pela CBV. É imperioso que os Instrutores os conheçam e sigam os parâmetros fixados em cada um deles. São eles:
O Regimento Interno da CONAT/CBV é que estabelece que ela é o órgão representativo da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) para formação continuada de Recursos Humanos na área técnica do Voleibol Brasileiro.
Este Regimento Interno estabelece que todas as atividades organizadas e desenvolvidas pela CONAT, reger-se-ão pelas normas baixadas por ele. Ele visa disciplinar as atribuições e funcionamento dos Cursos da CONAT, em conformidade com o Regulamento Geral da CBV. O Regimento Interno estabelece que a CONAT tem os seguintes fins:
Capacitar profissionais de Educação Física com competências e habilidades necessárias ao exercício em toda e qualquer função na área técnica mediante a busca e manutenção da excelência do voleibol brasileiro.
A atuação dos Instrutores escolhidos para ministrarem cada curso deve, portanto, estar em consonância com o que preconiza o Regimento Interno. Para ser indicado para ministrar um determinado curso, o Instrutor deve ter conhecimento dos conteúdos de todas as disciplinas que o compõe, e não apenas sobre voleibol.
Como Instrutores, devem presenciar todas as atividades de cada curso sob sua responsabilidade. Para tanto, eles devem ter uma formação multidisciplinar, englobando todos os temas que forem ministrados pelos professores especialistas convidados de acordo com a grade curricular de todos os níveis (do I ao IV). Por exemplo: Aprendizagem Motora, Psicologia, Nutrição, Arbitragem, Crescimento e Desenvolvimento, Fisiologia, Preparação Física, Estatística, entre outras. Não se trata de tarefa fácil.
A referida exigência é para garantir que os conteúdos explanados em todas as aulas contemplem, de maneira satisfatória, aos objetivos dos cursos. Sempre que o assunto não for abordado de forma satisfatória, como se espera, é de responsabilidade dos Instrutores fazê-lo.
O Regimento também solicita por parte dos instrutores, capacitações técnicas operacionais que vão além de uma formação acadêmica específica, ligada à prática do voleibol. Eles necessitam organizar os cronogramas dos cursos, programar as atividades em conformidade com as condições ambientais ofertadas pelos organizadores locais, convidar professores especialistas adequados para o nível do curso em questão, estabelecer os temas para os trabalhos, seminários e clínicas e designá-los para cada aluno ou grupo.
A elaboração das avaliações, teóricas e práticas também é algo muito trabalhoso, pois as questões necessitam espelhar os conteúdos realmente ministrados em cada curso. Por exemplo: não é nada fácil se elaborar questões de múltipla escolha, que realmente façam com que os alunos raciocinem e mostrem conhecimento. Como as avaliações são determinantes para que um candidato atinja o nível desejado, quem as prepara precisa ter conhecimento técnico de como elaborá-las, pois não basta ter domínio dos conteúdos pertinentes. Claro que o instrutor que possua capacidade didática e metodológica, além de experiência acadêmica, combinados com os requisitos acima citados, e que são determinados pelo Regimento da CONAT, terá maiores chances de sucesso.
As especificações do trabalho operacional dos Instrutores encontram-se no Regulamento para cursos de Treinadores - CONAT/CBV.
O Regulamento, em conformidade como o Regimento, determina como devem ser organizados e desenvolvidos os cursos ofertados pela CONAT em seus diferentes Níveis (de I a IV). É imprescindível que os Instrutores estejam bem familiarizados com o que rege o referido Regulamento.
Esse documento determina os perfis que os Professores de Educação Física devem possuir para se candidatar a uma vaga de aluno de cada curso. Ele ainda mostra qual a formação que eles devem apresentar ao término de cada um deles, para serem aprovados e merecerem o título de Treinador do nível correspondente. A aprovação permitirá a obtenção do Registro de treinador junto à CBV, que é, de fato, o que o licenciará o exercício da profissão.
O Regulamento determina em quais categorias os treinadores podem atuar. Por essa razão ele determina grades curriculares diferentes para os cursos de cada nível (I a IV), de maneira que os treinadores adquiram as capacitações diferenciadas para atender as necessidades que o processo de formação dos atletas requer, e se mostrem também preparados para treinar e conduzir equipes das diversas categorias.
Os conteúdos programáticos apresentados ao longo dos cursos dos quatro níveis, apresentam sempre correlações horizontais e verticais entre si. Isto significa que os conteúdos de cada disciplina se relacionam com os das demais que compõem a grade do curso em questão, e são pré-requisitos para a boa compreensão das disciplinas que serão estudadas nos cursos de níveis subsequentes. Há a preocupação, no Regulamento, de um desenvolvimento lógico na formação dos treinadores nacionais na progressão dos níveis dos cursos.
Essa organização das grades disciplinares de cada curso, exige que o Instrutor da CONAT, esteja preparado e atento para que os conteúdos sejam estudados satisfatoriamente. Ele deve acompanhar as atividades ministradas pelos professores especialistas, para observar a adequação delas com os objetivos de cada curso. Para um Instrutor é desafiador conhecer os conteúdos de cada disciplina, como eles se relacionam com as demais disciplinas do seu curso e com aquelas que compõem os demais níveis.
O que foi exposto até aqui mostra que a formação de um novo treinador é em muito determinada pelos cursos. E o curso somente terá sucesso se os Instrutores responsáveis por ele, elaborarem e desenvolverem atividades que orientem os futuros treinadores a desenvolverem seus trabalhos sob fundamentação científica.
Para tanto, torna-se imprescindível que os Instrutores criem estratégias para que a didática e a metodologia do treinamento, específicas ao voleibol, sejam contempladas em todos os cursos. Essas ferramentas permitirão aos treinadores planejar e adequar a utilização das estratégias empregadas aos diferentes momentos do planejamento ou de uma periodização. Elas também darão suporte aos planos de treinos, aos de jogos e como desenvolvê-los metodologicamente.
Conhecer e saber ensinar a didática e a metodologia para o ensino e o treinamento do voleibol, talvez seja a capacitação mais importante para que um Instrutor da CONAT tenha sucesso.
A formação de um Instrutor da CONAT traz uma complexidade desafiadora e eterna. Para ministrar um dos cursos da nossa entidade, é exigido que o seu responsável conheça todos os conteúdos das disciplinas específicas sobre voleibol, e de que forma os conteúdos programáticos das disciplinas complementares interagem com as mesmas. Se lembrarmos que os conteúdos devem estar alicerçados em bases científicas, e a ciência sempre apresenta novos conhecimentos, enquanto estiver na ativa, o Instrutor será a obrigado estudar, para não ficar ultrapassado.
O desenvolvimento do voleibol brasileiro foi um estímulo para o esporte nacional! Fazemos parte do esporte que revolucionou o esporte brasileiro. O voleibol foi o primeiro a propor e conseguir possuir equipes patrocinadas e criar o caminho para a profissionalização e dedicação exclusiva de atletas, treinadores e dirigentes. Estas modernizações permitiram conquistas internacionais memoráveis, e o mais importante: despertaram o interesse da mídia pelo nosso esporte, até então uma exclusividade do futebol. Isso trouxe muitas melhorias para a infraestrutura dos clubes e seleções, e o número de praticantes aumentou muito.
As mudanças aconteceram na gestão do Presidente da CBV Arthur Carlos Nuzman, que também criou a CONAT por sugestão do Prof. Célio Cordeiro, seu primeiro Presidente.
O Voleibol brasileiro passou a contar com os serviços de treinadores, que além de estarem bem-preparados para o exercício da profissão, passaram a ter suas condutas determinadas por um código de ética, de maneira que a imagem das atividades do voleibol fosse irrepreensível.
O que determina O Código de Conduta Ética da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) deve ser do conhecimento de todos os treinadores formados pelos cursos da CONAT. Vale salientar:
Art. 1º O Código de Conduta Ética da Confederação Brasileira de Voleibol (CBV) define os princípios éticos e as normas de conduta que devem pautar as atividades esportivas e administrativas da entidade e da comunidade do Voleibol de quadra e de praia no país.
Parágrafo único. As regras contidas neste Código expressam os valores e princípios da CBV como entidade máxima de representação do Voleibol no Brasil, das suas Entidades Estaduais de Administração do Voleibol – Federações Estaduais, e das Entidades de Prática do Voleibol a essas filiadas, bem como dos atletas.
Art. 2º São princípios éticos básicos do Voleibol no Brasil, sem prejuízo de outros difundidos no presente Código: I – a dignidade; II – a integridade; III – o espírito de cooperação e congraçamento; IV – a esportividade; V – a igualdade; VI – a universalidade da prática esportiva; VII – a não discriminação; VIII – a competição justa; IX – o fair play; X – a moralidade; e XI – respeito às regras e aos regulamentos esportivos.
Os princípios éticos estabelecidos pelo citado Código, devem ser praticados por todos, que de uma forma ou de outra, compõem a comunidade do voleibol brasileiro: Dirigentes, Instrutores, Treinadores e Atletas. Essa prática é que possibilitou que conquistássemos a imagem de sermos um esporte diferenciado. O trabalho é sério, competente, ético, inovador e por consequência vencedor.
Vimos, então que não é tarefa fácil ser um INSTRUTOR da CONAT. Ao aceitar o desafio para a missão, o Treinador deve estar ciente que as dificuldades, como vimos, serão constantes e permanentes, e que ele deve estar sempre preparado para elas.
Ao término desse estudo, ao lembramos da complexidade exigida pelas atividades dos Instrutores da CONAT, esperamos que tenha ficado claro, que para que eles possam desenvolver bem as suas funções, eles precisam ter uma belíssima formação, calcada em embasamentos científicos - coisa que só se obtém com muito estudo.
Ter sido um bom atleta é um bom quesito, mas não contempla as necessidades exigidas de um Instrutor. Um Treinador vencedor também tem boas chances para ser um bom Instrutor, mas também necessita estar preparado para as especificidades da função.
Por fim, os dirigentes que indicam e aprovam os novos candidatos ao corpo de Instrutores da CONAT, devem fazê-lo de forma criteriosa e responsável. Afinal estão escolhendo os alguns dos principais profissionais que serão responsáveis pelo padrão do voleibol praticado em nosso país! Ser escolhido para compor o quadro da CONAT, deve servir como orgulho para um profissional, pois acredita-se que ele esteja pronto para dar continuidade aos sonhos de CÉLIO CORDEIRO. Fato que exige muito comprometimento e responsabilidade.