AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO
Prof. Ariovaldo Fernandes Xavier Rabello
A análise de jogo no Voleibol permite que o treinador faça uma avaliação de desempenho de modo geral, e utilize os indicadores apontados, tanto para melhorar a sua equipe durante os jogos, como para estabelecer parâmetros para o planejamento dos treinamentos.
O treinador pode também, baseado nos dados coletados de sua equipe e dos adversários, trabalhar no desenvolvimento de seus jogadores, mostrando as possibilidades de raciocínio nas jogadas, e contribuindo para sua melhor compreensão do jogo. O treinador pode também utilizar os dados publicados a respeito de jogadores mundialmente aclamados, para servir de referência para metas a alcançar por parte de seus jogadores. Há muitas possibilidades de utilização dessa ferramenta por parte dos profissionais.
Quanto ao desempenho individual:
- proposta de evolução
- atuação na função tática
- análise da tática individual
- promoção da carreira
Quanto ao desempenho coletivo:
- avaliação do modelo e plano de jogo
- análise tática e estratégica nas ações do jogo
- avaliação da condução de equipe no jogo
Quanto à proposta de treinamento:
- orientação e controle de todos os aspectos que incidem no treinamento para tomadas de decisão
- verificação da adequação e eficácia do treinamento
Para a formação de um Banco de dados:
- jogos de equipes específicas ou jogadores
- utilização para futuras contratações, publicidade e outras oportunidades
Quando pensamos em avaliação de desempenho, devemos lembrar que somos seres emocionais e os programas estatísticos são matemáticos, então devemos cuidar de como e com o que os alimentamos nas coletas de dados. Os critérios para a coleta devem estar muito bem estabelecidos, considerando ainda que nem sempre será o mesmo indivíduo a coletar os dados.
Caso o treinador queira aproveitar dados advindos de avaliações externas, realizadas por outras instituições, é importante lembrar que o protocolo, critérios e programas devem ser os mesmos, para que não se corra o risco de utilizar dados que não replicarão os índices corretos para seu trabalho.
Há que se levar em conta também de que forma e com qual finalidade serão analisados e interpretados. Além disso é preciso definir como será o processo de apresentação dessas análises aos jogadores, que deverá ser de maneira pedagógica, e de forma a não causar constrangimentos. A idade, a personalidade e a experiência anterior do jogador que recebe essas informações interfere na maneira como ele vai recebê-las. Deve haver sempre uma preocupação em criar uma motivação positiva, principalmente com os mais jovens, que devem encarar esses momentos como parte de um processo formativo de longa duração, respeitando-se as fases da proposta do treinamento a longo prazo.
A avaliação faz parte do processo de aprendizagem, portanto, para que se possa avaliar a evolução técnica e tática dos jogadores durante as fases de trabalho, é preciso que se conheça o histórico de cada um, seu ponto de partida e os objetivos traçados para o mesmo em cada requisito técnico e tático.
No princípio do processo de aprendizagem são apontados os erros, acertos e continuidade nas ações do jogo. Acompanhando a evolução dos jogadores, passamos a avaliar os fundamentos que pontuam e posteriormente serão incrementadas as avaliações nas suas execuções técnicas. Nos aspectos táticos observa-se os posicionamentos dos jogadores, levando em consideração a incidência nas trajetórias da bola enviadas pelo adversário, e as opções de direcionamentos na preparação e envio da bola para quadra adversária.
Importante notar que quanto mais se caminha em direção ao alto nível, maior atenção se deve dar aos detalhes, que podem levar ou afastar sua equipe da vitória.
A ferramenta de avaliação de desempenho, o Scout, poderá ser utilizado na forma de planilhas ou Softwares. A elaboração de sua construção e posterior utilização deverá estar ligada ao custo/benefício que sua realidade poderá suportar, mas uma coisa não se pode questionar, a necessidade de sua utilização.
Os Jogos Esportivos Coletivos, desde 1930, são estudados nas Ciências do Esporte e pelas próprias comissões técnicas por meio de instrumentos de análise de jogo, para maior compreensão da lógica dos jogos.
A primeira avaliação que lembro de ter feito, foi na década de 1970, e era feita para avaliar quais passagens a equipe fazia mais pontos e em qual passagem sofria mais pontos. Era utilizada uma folha quadriculada onde se traçava para cima os pontos a favor e para baixo os contras, lembrando que no sistema de contagem só pontuava quem sacava. Como os traços eram feitos na diagonal do quadrado, ia se formando um gráfico e assim se poderia identificar quais passagens deveriam ter maior análise e dedicação do treinador. Porém essa avaliação só indicava a passagem que estaria potencializando o resultado a favor ou contra e em que fase do jogo, mas não respondia outros questionamentos, como:
Surgiam essas e outras questões que deveriam elucidar e orientar treinamentos, correções técnicas e táticas, preparação de planos de jogo, que levassem à continuidade das avaliações. Mas enfrentávamos problemas de logística quanto à distância dos jogos que não eram em sede única, número de avaliadores para atender à coleta de dados de distintas ações do jogo, entre outras dificuldades.
O tempo e a tecnologia se encarregaram de adequar a necessidade ao objetivo das avaliações de desempenho, e hoje temos softwares que agregam a capacidade de coleta de dados com vídeos, assim, as avaliações de desempenho se tornaram muito mais complexas. Isso exige grande preparo por parte dos treinadores, para uma análise detalhada e uma interpretação assertiva, a fim de gerar tomadas de decisão corretas na elaboração das propostas de trabalho para suas equipes, tanto no treinamento, no plano de jogo, como em correções técnicas e táticas durante as competições.
O treinador deve utilizar-se das suas análises para adequá-las ao seu planejamento, relacionando-as com o período de preparação de sua equipe, ou seja, período preparatório – geral e específico-, pré-competitivo ou competitivo.
Os sistemas e alinhamentos que irá utilizar nos fundamentos do jogo e as técnicas necessárias para cada jogador, deverão ser definidos, relacionando-os com suas funções específicas em cada ação tática de sua equipe. Exemplo:
No período preparatório específico, após uma fase de implementação dos sistemas, o treinador deve utilizar coletivos simulados e jogos propriamente ditos para que possa fazer avaliações de desempenho, e assim analisar o resultado obtido. Por meio dessa análise poderá determinar as intervenções a serem propostas no treinamento, dando continuidade ou propondo mudanças e correções, para que assim haja evolução no desempenho de sua equipe.
O registro dessas avaliações deve acompanhar o planejamento anual da equipe e assim demonstrar as bases para as decisões tomadas e uma consequente construção de um banco de dados. Quais seriam as ferramentas e critérios para estas avaliações?
Avalia-se o desempenho dos jogadores nos fundamentos do jogo saque, recepção do saque, levantamento, ataque, bloqueio e defesa, ou só os fundamentos que pontuam:
Exemplo de Critérios adotados:
Saque:
Técnica utilizada por cada jogador.
0 = Erro (bola na rede ou fora, ou falta ao pisar a linha de serviço)
1 = O passe proporciona todas as opções de ataque
2 = O passe tira a 1ª bola do ataque, porém proporciona uma ou duas opções de ataque
3 = O passe não proporciona uma única opção de ataque e a bola volta de “presente”
4 = Ace, ponto direto.
Recepção de saque:
Tipo de técnica utilizada por cada jogador.
0 = Erro, sem continuidade de jogo
1 = Passar a bola de “presente”
2 = Proporciona uma única opção de ataque
3 = Impede a 1ª bola do ataque, porém proporciona outras alternativas
4 = Proporciona todas as opções de ataque.
Obs: Para qualificarmos a qualidade do passe, devemos levar em consideração a trajetória, o local da quadra onde foi enviado o passe, como também a altura e velocidade dele.
Assim, todos os fundamentos devem ser avaliados como nos exemplos acima.
Conceito de desempenho orientado nas aulas do Prof. Celio Cordeiro, nos cursos da CONAT:
Eficiência: Representa a porcentagem média de produção do atleta;
Eficácia: Representa a porcentagem de ações perfeitas do atleta.
Erro: Representa a porcentagem de ações erradas do atleta.
Fórmulas para taxa de ERRO, EFICIÊNCIA e EFICÁCIA:
Eficácia = (Nº de ações perfeitas x 100) / ( Nº total de ações )
Eficiência = [(N Eficácia=º de ações 4x4) + (Nº ações 3x3) + (...) – (Nº de ações erradas)] x 100 / (Nº total de ações x 4)
Erro = (Nº de ações erradas x 100) / ( Nº total de ações )
Como citado anteriormente muitas são as possibilidades e aqui estão alguns Apps de avaliação de desempenho:
Volleyball Score Simple; Volleyball Scoreboard: Record Your Points; NS Volley Scout PRO; SportEasy; Volleyball Stat!; SoloStats 123; Volleyball Scout; SpikeVision; TacticalVolley; V.I.S. (Volley-Ball Information System); Data Volley 4, Software Roberta Giglio.
Muitos são os aplicativos para avaliação de dempenho, mas talvez os mais utilizados são o Volley-Ball Information System e o Data Volley 4, este último acopla vídeo com o scout. O importante é entender que os softwares respondem tudo aquilo que o treinador souber perguntar, assim talvez o Data Volley 4 seja o que tenha maior detalhamento do que se pode avaliar dos fundamentos do jogo, e com o vídeo unido ao scout. Pode-se editar as jogadas junto com a avaliação estatística e visualizar assim o resultado com a ação, a visão da imagem e da jogada como um todo. Dessa forma é possível um melhor entendimento das sequências de ações técnicas e táticas e assim concluir com exatidão o que levou sua equipe ao acerto ou erro.
https://dataprojectweb.blob.core.windows.net/productheaderimage/DVW4/DV4_eng.png
Fonte: dataproject.com
Sinais utilizados para avaliação no Data Volley 4:
# Ação Perfeita;
+ Ação Positiva;
- Ação Negativa;
! Ação Neutra;
/ Ação Fraca;
= Ação Errada.
Obs: Criar critérios para cada ação, como também para avaliar: saque, recepção, levantamento, ataque, bloqueio e defesa.
É possível fazer um acompanhamento e mapeamento simultâneo ao jogo, onde o treinador poderá visualizar a incidência de trajetórias das bolas enviadas à sua equipe e fazer adequações técnicas ou táticas para buscar eficácia nas ações de sua equipe. O programa permite avaliar o adversário e sua equipe em tempo real durante o jogo e trará informações sobre se o adversário está executando as ações esperadas. Para estabelecer esses parâmetros é necessário possuir um banco de dados do adversário, que deverá ter em torno de 9 a 10 jogos.
Para que os instrumentos de avaliação de desempenho técnico e tático sejam realmente úteis, é imprescindível que o treinador tenha estabelecidos objetivos claros e estabeleça metas sobre o que deve ser avaliado: composição, sequências de ações e a relação entre elas, dentro dos complexos de jogo (sequências de ações que as equipes executam durante uma partida - Complexo 1 e 2 pela FIVB), assim como pontos de avaliação para posterior análise, interpretação e orientação.
Assim são sugeridos abaixo, alguns questionamentos para serem respondidos após a análise das avaliações, processo que começa na de coleta de dados, depois a avaliação de desempenho de adversários, análise do treinador e tomada de decisão para fundamentação da preparação do plano de jogo de sua equipe, em função do enfrentamento a um adversário específico, lembrando que esta coleta não será feita em um único jogo e sim no máximo possível de jogos:
Quanto à ação de saque:
Ponteiro passador na rede, quando é o alvo de saque:
Após essa análise o treinador deve decidir, melhor sacar nele ou visar outro alvo?
O treinador deverá fazer este processo de análise com todos os passadores, passagem por passagem, incluindo os atacantes de velocidade que estão fora do passe, mas que se forem obrigados a passar, com saques direcionados aos seus deslocamentos, poderiam ou não comprometer as funções na formação tática de ataque.
Na continuidade do seu processo de análise, o treinador deverá passar por cada ação do jogo, de modo a definir o que irá desenvolver com sua equipe. Mesmo assim o seu plano de jogo deverá contemplar um plano B, pois caso a partida não esteja se desenvolvendo como esperado, soluções devem ser propostas e seu encaminhador é o técnico, assessorado por sua comissão técnica.
No decorrer do jogo o técnico e toda a sua comissão técnica, além de coletar dados do jogo, deverão também equipará-los com o banco de dados e acompanhar as alterações que poderão estar acontecendo. As avaliações de desempenho são atualizadas e dinâmicas, e, aliadas à competência do treinador, serão base para sua conduta e encaminhamento de soluções aos seus comandados.
O trabalho do técnico não terminará após o jogo, pois ao final dele deve-se formatar um dossiê de como foi a partida com análise das avaliações de desempenho tanto técnico como táticos de sua equipe, do seu próprio desempenho e sua comissão técnica.
A evolução da tecnologia e a implementação de IA fará com que os softwares de avaliação de desempenho evoluam, se sofistiquem e atendam cada vez mais os treinadores, até com sugestões táticas estratégicas, mas de uma coisa podemos ter certeza: jamais o papel dos treinadores e suas comissões técnicas serão superados, pois a implementação de tudo que será sugerido passará pela sua competência didática e metodológica nas relações humanas.